Há exatos 20 anos, Mato Grosso registrava a maior tragédia aérea de sua história. Na tarde de 29 de setembro de 2006, o Boeing 737-800 da Gol, que realizava o voo 1907, caiu em uma área de floresta na região de Peixoto de Azevedo após colidir no ar com um jato executivo Legacy. As 154 pessoas que estavam no Boeing morreram, sendo 148 passageiros e seis tripulantes. O relatório final do Cenipa confirma que as duas aeronaves se chocaram às 19h56 UTC, enquanto voavam no mesmo nível de voo.
Duas décadas depois, as lembranças permanecem vivas para profissionais que participaram de uma das maiores operações de busca e resgate já realizadas no país. Mata fechada, acesso predominantemente aéreo, destroços espalhados por extensa área e a missão de localizar todas as vítimas marcaram os trabalhos que se seguiram ao acidente.
O Boeing havia partido de Manaus com destino ao Rio de Janeiro, com escala prevista em Brasília. Durante o trajeto, chocou a asa esquerda com o Legacy N600XL, que seguia no sentido contrário. Segundo o Cenipa, o jato executivo perdeu parte do winglet da asa esquerda, mas permaneceu controlável e conseguiu pousar no Campo de Provas Brigadeiro Velloso, na Serra do Cachimbo. Seus sete ocupantes não se feriram.
O Boeing da Gol, porém, perdeu inicialmente cerca de um terço da asa esquerda e ficou incontrolável. A aeronave entrou em mergulho, sofreu separação estrutural ainda no ar e atingiu a floresta. Não houve sobreviventes.

A busca em meio à Floresta Amazônica
A área onde o avião caiu era de difícil acesso. A Fazenda Jarinã passou a funcionar como uma das bases de apoio para as equipes que entravam na região da Terra Indígena Capoto-Jarinã.
O médico Iuri Tamasauskas, hoje cirurgião e coordenador do Centro Cirúrgico do Hospital Central de Alta Complexidade, tinha 25 anos e era tenente médico da Aeronáutica quando participou da missão.
Ele permaneceu 26 dias na operação e integrou as primeiras equipes que entraram na região dos destroços. Em determinados pontos, devido à ausência de local para pouso, militares precisavam descer dos helicópteros por rapel.
Dentro da mata, as vítimas estavam espalhadas por uma grande extensão. As equipes caminhavam pela floresta, localizavam os corpos e estabeleciam pontos para permitir a retirada pelos helicópteros.
“A gente encontrava um, dois, ia juntando três, quatro em um ponto, porque eram distâncias muito grandes no meio da floresta”, relembrou Iuri.
Com o passar dos dias, o calor e a umidade tornaram o trabalho ainda mais difícil. Em alguns pontos, segundo o médico, o próprio odor ajudava as equipes a perceber que havia uma vítima nas proximidades.
Uma das imagens que permaneceram na memória dele foi a localização de uma mulher junto a um bebê.
“A gente encontrou uma mãe grudada com um bebezinho.”
Além das vítimas, objetos comuns de uma viagem aérea apareciam espalhados entre os destroços: poltronas, bandejas, talheres, malas, fotografias e documentos.

Destroços eram difíceis de enxergar do alto
O então comandante do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer), Mariano Mattos do Nascimento, também participou das primeiras ações aéreas na região.
A vegetação densa e a altura das árvores dificultavam a identificação do local exato da queda. Os voos eram realizados com base nas coordenadas disponíveis e na tentativa de localizar alterações na mata que pudessem indicar a presença dos destroços.
À medida que os primeiros sinais começaram a ser identificados entre as copas das árvores, ficou evidente a dificuldade que as equipes teriam para acessar o local por terra.
A própria Força Aérea Brasileira registra que a operação mobilizou centenas de pessoas, dezenas de aeronaves e mais de 1.500 horas de voo, sendo considerada a maior operação de resgate do gênero realizada no Brasil.
“Ninguém seria deixado para trás”
O major-brigadeiro da reserva Jorge Kersul Filho, responsável pela coordenação da missão, lembra que, inicialmente, o Boeing ainda era tratado como uma aeronave desaparecida.
Quando ficou confirmado que não havia sobreviventes, o objetivo da operação mudou. O trabalho passou a se concentrar na localização e retirada de todas as vítimas.
Para Kersul, além da dimensão da tragédia, a operação mostrou a capacidade de integração entre Força Aérea, Exército, bombeiros, profissionais da saúde, peritos e outras instituições.
A missão deu origem, anos depois, inclusive ao livro “Ninguém ficou para trás – A operação de busca e resgate do voo 1907”, que registra a mobilização realizada após o acidente.

Investigação apontou uma sequência de fatores
A investigação do Cenipa analisou, entre outros pontos, o funcionamento do transponder e do sistema anticolisão TCAS do Legacy, as comunicações entre aeronaves e controle de tráfego aéreo e os procedimentos adotados durante o voo.
O relatório concluiu que o transponder do Legacy deixou de transmitir informações importantes durante parte do trajeto, impossibilitando que o sistema TCAS das duas aeronaves fornecesse alertas adequados de colisão. Os testes realizados posteriormente não identificaram falha técnica que provocasse uma mudança automática de modo no equipamento.
Os pilotos norte-americanos Joseph Lepore e Jan Paul Paladino foram condenados pela Justiça brasileira em primeira instância, em 2011, a quatro anos e quatro meses. A pena posteriormente foi reduzida para três anos e um mês em regime aberto.
Anos depois, houve tentativas de viabilizar o cumprimento das penas nos Estados Unidos. Em maio de 2024, a Justiça Federal reconheceu a prescrição e extinguiu as penas e os mandados de prisão contra os dois pilotos.
O controlador de voo Lucivando Tibúrcio de Alencar também foi condenado a três anos e quatro meses em regime aberto. A pena foi substituída por prestação de serviços comunitários e proibição do exercício da profissão.
Familiares das vítimas ainda buscaram indenizações por danos morais e materiais, tanto judicialmente quanto por meio de acordos com a companhia aérea, com valores definidos individualmente conforme cada caso.
Vinte anos depois, o acidente permanece como uma das páginas mais marcantes da aviação brasileira e, em Mato Grosso, como uma tragédia que deixou marcas profundas não apenas nas famílias das 154 vítimas, mas também entre os profissionais que passaram semanas dentro da floresta com uma missão: não deixar ninguém para trás.



