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Garimpo ilegal e facções mudam rotina dos Nambikwara na TI Sararé; operações avançam e somam prejuízo milionário ao crime

Operação do Ibama com outras forças desmantelou grupos ilegais e com ligação com o Comando Vermelho que atuam no território. Parte dos garimpeiros fugiu após a escalada no confronto na última semana.

Indígenas convivem com garimpo ilegal em Sararé em MT — Foto: Arquivo pessoal

Barulho de motores madrugada adentro, som alto, ervas medicinais escassas e menos caça. É assim que o povo Nambikwara descreve a vida na Terra Indígena Sararé, em Pontes e Lacerda, que se estende a Conquista D’Oeste e Vila Bela da Santíssima Trindade. Lideranças relatam que, nos últimos dois anos, garimpeiros ilegais e integrantes do Comando Vermelho intensificaram a presença no território, afetando alimentação, saúde e segurança da comunidade.

“Tiraram nossos remédios do mato e espantaram os animais; faltam peixes pelos rios poluídos”, disse a filha do cacique Tainá Katitaurlu (37). Segundo ela, os garimpos operam a cerca de 10 km da aldeia e exibem armamento pesado, o que inibe a circulação dos indígenas por áreas tradicionais de coleta e caça. A comunidade soma 201 habitantes e vive em zona de fronteira com a Bolívia, rota de tráfico, segundo a Polícia Civil.

Para o delegado regional João Paulo Berté, facções se infiltraram no garimpo desde 2024, ampliando a violência. “Em 2024 e 2025 contabilizamos cerca de 60 homicídios ligados à disputa por espaço no garimpo”, afirmou. Parte dos grupos é investigada por danos em outras terras indígenas. O ouro, diz o delegado, virou fonte de financiamento do crime por ser “extremamente lucrativo e de escoamento mais rápido que drogas”.

As ações de repressão se intensificaram. A Polícia Federal deflagrou a Operação Lençol de Areia (10) contra crimes em garimpo e casa de prostituição na região. Em setembro, agentes do Ibama trocaram tiros com garimpeiros (25) e voltaram a enfrentar resistência entre (28) e (29), no âmbito da Operação Xapiri, iniciada em 1º de agosto. O balanço parcial aponta 150 escavadeiras hidráulicas destruídas e prejuízo superior a R$ 226 milhões ao garimpo ilegal.

Os fiscais localizaram 14 bunkers com estoques, equipamentos e insumos. Em um abrigo, apreenderam seis armas, entre elas um fuzil 5,56 mm e duas espingardas calibre 12. Segundo o coordenador de campo do Ibama, Hugo Loss, o material “segue padrão de grupos criminosos”, com armamento e munições incomuns a fiscalizações ambientais.

As operações são coordenadas pelo Ibama, com PF, PRF, Abin, Funai, Força Nacional, Gefron, Polícia Civil e PM de MT e GO. Elas cumprem decisão da Justiça Federal para desintrusão — retirada de invasores — da TI Sararé, sem prazo para terminar. A meta é romper a logística do garimpo, cortar o fluxo de insumos, impedir a recomposição de frentes e restaurar a segurança no entorno.

Enquanto isso, os Nambikwara pedem proteção contínua. “Precisamos das matas e dos rios para viver”, resume Tainá. A pauta é urgente: conter o avanço das frentes ilegais, reduzir a violência e garantir condições mínimas para que a vida tradicional volte a respirar na Sararé.

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