O presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida, é apontado pela Polícia Federal como possível líder de um esquema envolvendo movimentações financeiras suspeitas, saques em dinheiro e irregularidades na administração de contratos públicos. As informações constam de uma representação policial analisada pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no âmbito da Operação Tomada de Contas, deflagrada na manhã desta quinta-feira (29). A investigação identificou aproximadamente R$ 75,8 milhões em movimentações consideradas suspeitas entre janeiro e outubro de 2025.

De acordo com informações divulgadas pela Gazeta Digital, a Polícia Federal identificou seis investigados que teriam exercido funções distintas na estrutura sob apuração. O grupo seria composto por pessoas responsáveis pelo comando administrativo, articulação jurídica e financeira, movimentação de contas bancárias, realização de saques e transporte de dinheiro em espécie. Todos os seis foram presos preventivamente durante a operação, que também incluiu mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Segundo a investigação, Sérgio Ricardo teria utilizado sua posição à frente do Tribunal de Contas para influenciar decisões administrativas, contratos, nomeações e setores envolvidos na liberação de pagamentos. A Polícia Federal suspeita que parte dos recursos movimentados tenha sido convertida em dinheiro vivo por meio de operadores financeiros. A apuração atribui ao presidente aproximadamente R$ 15,6 milhões em saques em espécie no período analisado. Essas informações representam suspeitas investigativas e ainda não constituem comprovação definitiva de desvio ou condenação judicial.

Investigação aponta funções atribuídas aos seis presos

Além de Sérgio Ricardo, a operação resultou na prisão de Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, consultor jurídico-geral do TCE-MT. Conforme a representação policial, ele seria um dos principais articuladores jurídicos e financeiros da estrutura investigada, com movimentações de aproximadamente R$ 32,3 milhões em contas bancárias. A Polícia Federal também apura a eventual utilização de empresas vinculadas ao investigado para movimentação ou ocultação de recursos.

Gustavo Fernandes da Silva, assistente jurídico comissionado, é apontado como possível operador financeiro, com cerca de R$ 15,9 milhões em valores recebidos nas contas analisadas. A investigação menciona registros de operações bancárias e saques realizados em uma agência do Sicoob localizada nas dependências do Tribunal. Felipe José Glinke, assessor jurídico da Presidência, também teria participado da movimentação de recursos, com aproximadamente R$ 9,9 milhões identificados pela Polícia Federal.

A chefe de gabinete da Presidência, Roseli Loss, é investigada por supostamente realizar saques em contas vinculadas a Sérgio Ricardo. Segundo a representação, as retiradas atribuídas a ela totalizariam cerca de R$ 3,5 milhões. Parte desses valores teria sido entregue a Adriangelo Barros Antunes, secretário-executivo de uma comissão permanente do Tribunal e ex-cunhado do presidente, apontado como responsável pelo transporte e circulação de dinheiro em espécie. A investigação também identificou movimentações de aproximadamente R$ 2,2 milhões associadas a Adriangelo.

Os valores mencionados correspondem a movimentações e operações identificadas durante a investigação. Isso não significa que todos representem dinheiro efetivamente desviado, nem que possam ser somados para calcular um prejuízo aos cofres públicos, já que podem existir transferências sucessivas dos mesmos recursos.

Contratos suspensos também são investigados

Outro ponto da apuração envolve decisões administrativas adotadas pelo Tribunal de Contas em 2024. Naquele ano, uma portaria determinou a suspensão temporária de contratos e pagamentos por 90 dias, com exceções para determinados serviços. Posteriormente, a medida foi prorrogada até o final do ano.

Apesar das suspensões, a Polícia Federal identificou 1.624 pagamentos destinados a 94 empresas durante 2024. Os investigadores buscam esclarecer se houve tratamento diferenciado entre fornecedores e se decisões administrativas foram utilizadas para pressionar empresas ou favorecer determinados pagamentos. Segundo a reportagem, 55 empresas receberam recursos antes e depois da suspensão, enquanto outras 21 deixaram de receber após a medida.

A investigação também examina possíveis relações entre transferências bancárias, saques realizados nas dependências do TCE-MT e a atuação dos servidores envolvidos. Para a Polícia Federal, as circunstâncias podem indicar, em tese, a ocorrência de crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Operação foi autorizada pelo STJ

A Operação Tomada de Contas mobilizou mais de 180 policiais federais para o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão, além de medidas de quebra de sigilo e sequestro de bens. As ordens foram autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça.

A prisão preventiva é uma medida cautelar adotada durante a investigação ou processo, não representando condenação. Os investigados têm direito à defesa e à presunção de inocência, enquanto a Polícia Federal continua reunindo elementos para esclarecer a origem, a finalidade e o destino dos recursos movimentados.

Segundo a Folha de S.Paulo, a defesa de Sérgio Ricardo informou inicialmente que ainda não conhecia os fundamentos da prisão e que o conselheiro permaneceria em silêncio até ter acesso ao inquérito.

O Canal Diário acompanha os desdobramentos da investigação, que envolve uma das principais instituições de fiscalização das contas públicas de Mato Grosso.